ESTADO DO ES REGISTRA MAIS DE 400 CRIMES SEXUAIS CONTRA CRIANÇA E ADOLESCENTE - MATÉRIA DO GAZETA ON LINE

Publicado: 06 de Agosto de 2014
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01/07/2014 - 15h38 - Atualizado em 02/07/2014 - 14h21
Autor: Danilo R Meirelles |

Araceli completaria 50 anos nesta quarta; Estado registra mais de 400 crimes sexuais contra crianças por ano

A menina que virou símbolo da luta contra a violência infantil completaria 50 anos nesta quarta-feira (2)

 

Foto: Arquivo

Araceli vivia numa casa modesta na Rua São Paulo (hoje Rua Araceli Cabrera Crespo) no Bairro de Fátima, na Serra. No dia do crime, saiu para estudar em um colégio na Praia do Suá, em Vitória, e nunca mais voltou. Um bilhete assinado pela mãe autorizava a escola a liberá-la mais cedo

Vitória, 2 de julho de 1964.  A data marca o nascimento da menina Araceli Cabrera Crespo que, antes de completar nove anos, foi vítima de um bárbaro crime que chocou a sociedade capixaba e ganhou dimensões nacionais. No aniversário de 50 anos de Araceli, o número de abusos sexuais contra crianças cresce e o Estado tem poucas ferramentas para combater.
 
O estupro seguido de morte aconteceu em 18 de maio de 1973 - Araceli tinha apenas oito anos - e, apesar da data inspirar a criação do Dia Nacional de Luta Contra o Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, a estrutura Estadual se mostra frágil mesmo 50 anos depois: existe apenas uma Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) e nenhuma vara judicial especializada nessa área.
 
O delegado da DPCA, Érico de Almeida Mangaravite, diz que a principal mudança sobre esse tipo de crime é que ele passou a ser abertamente discutido. "Havia a noção por parte da sociedade que isso se resolveria no seio familiar. A pior coisa que pode ser feita é não levar às autoridades. O criminoso fica impune e a vítima se sente desvalorizada. Isso tem mudado", revela o delegado.
 
Foto: Danilo R Meirelles

Crimes sexuais - 2010: 359 casos. 2011: 470 casos. 2012: 488 casos. 2013: 442 casos. 2014: 440 média. Total: 2.199 casos em cinco anos

A consequência de uma sociedade aberta a discutir esse assunto é o aumento no número de casos. A média de crimes sexuais contra crianças nos últimos cinco anos é de 440 casos por ano, apenas nos cinco principais municípios da Grande Vitória. Se mantiver essa média, de 2010 até o fim deste ano serão registrados 2,2 mil casos na DPCA. "O disque-denúncia (181) e o Disque 100 são ferramentas que facilitam o trabalho e protegem o denunciante porque garantem o anonimato", analisa Mangaravite.
 
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"A pior coisa é não levar às autoridades", diz o delegado Érico Mangaravite

Desde 2012 à frente da DPCA, o delegado observa que a maior parte dos abusos começa no ambiente familiar. "O criminoso busca se aproximar da família e contar com a confiança deles antes de praticar qualquer ato. Ele usa de mecanismos de aproximação da criança (brinquedos e coisas do universo infantil) e o abuso ocorre de forma gradual: usa de palavras sexuais num primeiro momento, depois o contato mais íntimo e então o abuso".
 
Para evitar, cabe aos pais ficar atento e tentar manter o diálogo com seus filhos, especialmente quando mais jovem. Utilizar de uma linguagem adequada sobre sexo e explicar sobre contatos físicos adequados e inadequados. "A criança precisa saber que dar a mão para atravessar a rua é um contato aceitável. Mas o toque nas partes íntimas não deve ser comum a qualquer pessoa", recomenda Mangaravite.
 
Araceli
Ninguém foi punido
 
Araceli vivia numa casa modesta na Rua São Paulo (hoje Rua Araceli Cabrera Crespo) no Bairro de Fátima, na Serra. Era a segunda filha do eletricista Gabriel Crespo e da boliviana Lola Cabrera. No dia do crime, saiu para estudar no Colégio São Pedro e não retornou. Um bilhete assinado pela mãe autorizava a escola a liberá-la mais cedo.
 
A família distribuiu cartazes, fotos e procurou pela menina por seis dias, até que o corpo foi encontrado atrás do Hospital Infantil de Vitória. Exames revelaram que ela foi drogada, espancada e estuprada. Os acusados teriam lacerado a dentadas os seios, a barriga e a vagina. Ácido ainda foi jogado sobre o corpo para dificultar a identificação.
 
O sepultamento do corpo aconteceu apenas três anos após o crime, aumentando a agonia de familiares de Araceli.
 
Membros de duas tradicionais famílias capixabas foram apontados como culpados em 1980, mas a sentença foi anulada, e num novo julgamento em 1991 eles foram absolvidos. O crime prescreveu.

 

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